José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos


Geografia da Dor
 
"Se alguém quiser me conhecer direito, tem que me prender e colocar numa sala bem escura. Aí eu conto tudo. O escuro é fruto do meu vazio. E não me perguntem por que... porque posso explicar que nesta vida maluca há doidos batendo de hora em hora no coração dos homens sem tempo!"

 
Tenho duas felicidades: uma mora aqui; outra fugiu pra ontem.

Sou mordaz, mas sou comedido. Sei falar em público, mas não tenho paciência de sentar ao seu lado.

Frequento bares da meia-noite e tenho vontade de fugir para dentro deles e nunca mais sair.

Sou homem forte e grosseiro. Como sal feito doce. Ando desengonçado segurando duas malas: uma de ida, outra de volta.

Costumo andar de trem, por isso acordo às três. Vou dormir quando não tenho sono e acordo esfomeado e sonolento, invejoso e perdulário.

Sou vítima da realidade e por isso não me cansam de fotografar. Nada fiz na vida de sério. Mas, se pode levá-la à sério?

Tenho duas carteiras: uma de couro, outra de meditar. O título de eleitor eu rasguei porque não acredito nem um pouco naqueles que dizem fazer. Ninguém faz nada do que diz. Poucos fazem por alguém. Começam pobres e no final do mandato não tem onde colocar dinheiro. Colocam geralmente na casa das duas amantes.

Nasço todo dia como um milagre. Não vejo TV que os outros não veem, não leio jornal, nem ouço rádio.

Só acredito em ratos e eles estão todas as noites em minha parede.

Tenho barba crescida de revolta. Sou solteiro de nascença. Moro num porão abandonado que, alguém, por descuido, esqueceu na hora de se mudar.

Meu quarto é feito de um colchão, muito cimento e de várias garrafas de aguardente. Sempre que dá alguma hora do dia ou da noite, belisco o aguardente.

O médico do INSS já me disse, quando fui internado em estado de coma alcoólica, que se eu não parar, eu morro. Azar. Ele também vai morrer.

Não tenho cartão de crédito, mas em compensação, tenho crédito na vendinha de seu Zé. Pago em dia as prestações do aguardente vendendo jornal e papelão dos outros.

Mas se não estou morto por fora, estou também por dentro. Queria que lá dentro de meu espírito fosse um grande jardim onde eu pudesse atravessar com a natureza as várias estações do ano. Rindo e feliz. Mas neste tempo, não dá.

Adoro o cimento: é frio e rústico. Daqueles brutos e maciços, que usam para construir castelos. E me chamam na rua de algoz. E eu sei lá o que é isso? Me chamam de psicótico. E eu sei lá o que é isso? Me chama de desvairado. Ah! não sei mesmo.

Os únicos loucos aqui são os outros que atravessam o dia peneirando e trabalhando, brigando com os filhos, brigando com a mulher, com o porteiro, com os vizinhos. Esses, que tem mil contas pra pagar.

Se tem um louco aqui não sou eu não. Fui apenas jogado no buraco das horas e me deram vida. E depois me deram o nome de João. O resto não sei. Sei apenas, se for o caso, que sou culpado da grande circulação de omissos na terra dos homens.

Tenho até habilitação para morrer. Mas agora não! Deixa o álcool fazer isso.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 14/05/2017
Alterado em 27/07/2017


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