José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos

Minha Vida
Um dia percebi que alguma coisa diferente acontecia comigo. Era jovem, forte e saudável. Pouco ia ao médico, tinha lá meus 35 anos, casado, com filhos. Alvissareiro e repentino. Dúbio e terno.

Mas alguma coisa me incomodava por dentro. Uma espécie de angústia e sofridão. Um parêntesis de loquacidade e o caminho de um vazio, sem boras e sem limites, que me tomava todas as noites, depois que acabava o trabalho: um bom advogado atarefado o dia inteiro com infelicidades e anseios dos outros

O tempo passava, os filhos cresciam - já altruisticamente alheios aos pais, e o matrimônio se afogava numa escuridão, que era bem disfarçada por noitadas com amigos, festas e jantares.

Uma boa vida, estável, confortável, debruada de surpresas diárias tanto na família como no trabalho.

Mas lá dentro de mim, todo as noites que voltava para casa, depois de festejar alguma coisa com amigos, nos bares o em happy-hours, me sentia inseguro e mais sedento em permanecer naquele estado de letargia que o álcool me levava e me fazia bem. Me sentia maior do que eu era, sonhava maior e os sonos eram mais tranquilos e festeiros.

E virou uma mania incontrolável. Saúnas e banhos turcos, após o trabalho, bebidas a valer com os sinceros amigos - a maioria também advogados, médicos e outros tantos outros - , nos afogávamos em longínquas bebidas, quando não se levavam também aos colos forrados com toalhas bordadas, mulheres dos mais variados tipos e tamanhos.

Sentia que já não podia passar sem aquilo. O trabalho enfraquecia e não possuía a garra que tinha antes. Dava pra notar não só no escritório, como também nas rodas que frequentava e, principalmente, em casa.

Uma angústia me tomava de anseios e párvulos comezinhos de querências e vazios. Eu já não pensava no meu trabalho e minha família também não era o maior ardor do mundo.

O que me festejava o espírito era esperar a noite cair e sair com os amigos. Encontrá-los no bar e discutir pejantes temas, onde cada um sabia mais do que o outro. Cada um tinha uma tese mais brilhante e entremeávamos tudo isso com gostosas gargalhadas de piadas mais comezinhas possíveis.

Sentia meu mundo avançar e retroceder para um limite da escuridão e da luz.

Mas avançava galopante para minhas noites. A mulher atazanava diariamente com o meu modo de viver e me chamava a atenção inútil que só servia para desacomodar mais nosso casamento. Os filhos, nem digo. Praticamente não os encontrava e poucos falavam comigo.

Já levantava amuado e sedento e passei a tomar uma pequena cerveja antes de ir ao trabalho. Enquanto o almoço não chegava, nos vários e benesses restaurantes que, com os amigos frequentava, tomava algum aperitivo no bar.

E os dias se passavam assim, em agonias, anseios, alegrias falsas, uma perene solidão e uma augusta áurea de atrair para mim um mundo que não existia.

Um dia, sentindo fortes dores no estômago resolvi ir a um clínico.

Depois de vários e embrulhantes exames, veio o diagnóstico petulante:
- O sr. é um alcoólico e deve se internar de imediato para uma recuperação mais completa.

Eu digeri a notícia, complexa, ardorosa e arrasadora.

A partir daquele dia minha vida tornou-se formidável: abandonei a mulher, deixei os filhos de lado, abandonei os amigos, pouco ia ao trabalho, até me aposentar por invalidez.

Mas a vida tornou-se arrochante e soberba. Sentado quase o dia inteiro em bares e ao lado de incríveis mulheres, passava as horas de minha vida bebendo intensamente, sem parar, até que a noite chegasse e batesse na cama, com roupa e tudo.

E minha vida passou a ser assim: um inferno, e em determinadas horas, um paraíso sem fronteiras. Um amortecimento de sentidos, uma vaga lembrança que eu habitava algum mundo. Se houvesse um era, certamente, oco.

Mas lá dentro de mim - quando finalmente descobri a melhor maneira de esconder e morrer as minhas querências, ansiedades e medos - , eu sabia que ia partir a qualquer momento.

A qualquer momento. Se já não parti.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 18/05/2017
Alterado em 22/05/2017


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