José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos

O Homem da Carrocinha

As casas se alongavam preguiçosas ao longo de uma rua batida em terra e socada por trilhos de carroças. Galhos de dezenas de árvores debruçavam-se preguiçosas sobre a rua, sempre armando tépidas e longas sombras onde a maioria dos moradores da vila se deixavam ficar na época do forte calor e mormagem.

A vila era pequena e todos moravam em suas imediações; havia fazendas e sítios, mas bem longe dali.

Naquela época, não existia muito a fazer senão brincar com outros meninos nas trilhas que se abriam ao redor da vila, nos densos matagais. Bom era sentir o aroma que vinha da florada que se abria em todos os cantos. O mais importante era fazer parte dali - fato que iria marcar toda a vida dos meninos e meninas daquela época.

A vila se encrustava num vale, onde o trabalho era na lavoura, na colheita do café e do milho, que eram vendidos na capital. Trabalho duro e braçal dos homens que levantavam ainda escuro e passavam todo o dia nos campos.

Carroças puxadas à parelha de bois, lentas e monótonas sempre passavam pela grande rua da vilazinha, ao lado de charretes com corsos, bem escovados e sempre enfeitados com puxões e arremates, de seda ou linho, no dorso dos animais, fazendo movimentos brilhantes ao sol, sempre que por ali passavam em direção às fazendas. Pertenciam aos donos de moinhos e de longas terras e eram dos mais abastados.

A longa rua terminava numa pracinha, que tinha um coreto, vários bancos de madeira e postes mantidos à luz de querosene.

A paz morava ali. De manhã íamos à escola e a tardinha todos iam a praça, principalmente nas tardes quentes, onde muitos namoravam, outros, mais velhos, discutiam política, as senhoras tricotavam e as crianças corriam descabeladas de um lado para outro.

Por trás daquele esplendor, no verão de 1919, apesar dos meus nove anos, o que me angustiava era ver um homem velho e de poucas forças, puxando uma carrocinha de pipocas e doces, subindo ou descendo a rua ou parando em seu lugar preferido: a praça. Ele abria um longo chapelão de lona avermelhada sobre a carroça, se protegendo do sol, sentava numa banqueta e vendia suas guloseimas.

Ele passava o dia fazendo pipocas salgada e doce, amendoim e paçoca, doce de arroz e tiras de broa de milho, como só ele sabia fazer. De muitos, ele não cobrava, era o pleno prazer de sempre estar junto das crianças e fazê-las sorrir.

Da pracinha, lembro-me vagamente das pedras sextavadas e dos postes com luzes tremulantes. Da rua, das brincadeiras e correrias, da escola, de uma velha professora, que todos respeitavam; da igreja, do pároco gorducho que nos ensinava lições de catecismo com a obrigação de assistir as enfadonhas missas de domingo.

Não tinha pais e apenas um parente me abrigava. Me dava um teto decente e boa comida.

O homem da carrocinha era meu avô, que numa tarde ensolarada, morna e sonolenta, morreu, como uma ave, com a cabeça candidamente apoiada nas arestas da carroça. Parecia dormir. Morreu por volta de duas da tarde, mas só foram perceber lá pelas quatro horas, de tão calma e tranquila que foi sua morte. Seu grande corpo desengonçado parecia querer abraçar a carrocinha.

Daquela imagem nunca esqueci, como está em mim ainda o aroma e as encorpadas árvores da vila; o cheiro de flores o aroma das folhagens, a lembrança de meu avô. Tudo ainda está em mim como um sonho que não passou.

Hoje, mas sovacado na cidade grande, entre mutirões de prédios e carros, de um barulho infernal, queria ele de volta. Sinto que ele viveu a vida que quis e deixou sua liberdade de viver sobrevoar em todos nós.

É com esta pedra de angústia e lembranças, já sem nome, que me suporto e tenho vontade de chamá-lo de volta, como se a vila ainda existisse, como se ele estivesse lá ainda vendendo pipocas e preocupado com minhas artes de nove anos...
José Kappel
Enviado por José Kappel em 22/06/2017
Alterado em 27/07/2017


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