José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos

Espiritualidade Fogosa
Vinha pensando na vida e na morte, pelos caminhos dos trilhos, de passagens somente para bons trens. Mais na morte do que na vida.

Se você passou - penso - já está morto. Explico: se você, por qualquer denso e imensurável, caótico e loquaz motivo já rompeu seu tempo e cumpriu suas tarefas, você está simplesmente morto e à espera do enterro.

Mas se você é obreiro ainda deste grande mundo, ou se lhe cabem ainda mil tarefas. A vida vai lhe suportar tantos e tantos anos, até que você as cumpra.

Este é um pensamento devastador e cheio de agudas perguntas e respostas. Não as sei responder. Mas, pelo movimento do mundo, no acorda e levanta de todos os dias, vendo os mortos se irem e outros nascerem, a gente sente que alguma coisa nos move.

Não sou assaz religioso, nem de templos frequento, não rezo há 50 anos, nem uma apraz missa de sétimo dia já não vou eu. Quando se chega a uma certa idade as coisas importantes ou não vão perdendo seu sentido.

O lugar da história é dentro da gente. O que se passa lá fora são circunstanciais. Quero dizer que a natureza com sua, às vezes, sápia perspectiva nos leva a crer que somos movidos iguais peças de um jogo.

Sei que em algum lugar alguém me espera mesmo sendo a pessoa mais solitária do mundo. Mas ela estará lá, perfeita, com seus olhos, sua boca, mesmo formato do rosto e com a mesma densidade espiritual.

Se isso lá existe, não sei! Quem me contou foi meu avô, quando tinha meus dez anos. Ele dizia que em algum lugar o seu outro lado está vivo. Que as dores e ansiedades que você sente são as mesmas que transpassam para o outro.

Uma espécie de mitigação espiritual onde pares sobrevoam o ralo mundo. A história me impressionou e nunca mais a esqueci. Quer dizer que em algum outro lugar do mundo existe um outro que percorre os mesmos caminhos que nós passamos? História de velhos pra criança dormir?

Mas, em todo caso é bom ter cautela. Tenho medo de assombrações, fantasmas, filmes de terror e mulher bonita demais. Quem sabe que, com o passar do augusto tempo, na virada de uma ocasionalidade eu me depare com o meu outro?

Ou me depare com anseios iguais? Nesta história toda de metafísicas e ralas espiritualidades só não quero me deparar, de repente, com uma mulher que tenha também meu sopro de vida.

E se nos seus dias passionais eu sofra de tal angústia de amores que vá procurar por caminhos indecifráveis me completar? E não é à toa que vivo sentindo estranhas cólicas mensalmente.

Será que minha outra espiritualidade é uma fogosa mulher de três amantes, dois maridos, 5 filhos, com uma menstruação raivosa? Que não seja verdade esta história.

Deus me livre disso. Que abismo mais profundo!
José Kappel
Enviado por José Kappel em 01/07/2017
Alterado em 27/07/2017


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