José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos


 
  inócuas são as margaridas
  que florescem ao léu de
  meu jardim de duas entradas
e de alento árido.
 
  mas não são só margaridas
  que fazem o sentido do jardim.
  
  é não possuí-lo e saber
  que não sou dono de mim
  nem de nenhuma flor.
 
  então, navego agora
  onde tudo são sós.
 
  mas, era querer demais
  frutificar em mais pétulas
  umas frágeis, outras hercúleas.
  
  os visitantes só entram na
  primeira porta - a que não tem
  saída.
 
  a segunda porta
  é de emergência,
  para fugas bruscas
  nas madrugas chuvosas
  - fora das luas que não surgem -
  nestas noites de muito
  empenho para deixar
  tudo e não ser mais nada.
 
 e, segundo consta a maledicência,
  que corre atenta por esses dias,
  sou homem de uma só porta.
 
  por isso, mandei construir uma
  segunda porta - a de emergência -
  que vai dar no pórtico de uma
  ruela escura e sem nome 
  onde sobrevivem sombras
  suspeitas e desgarradas de almas e
  de gente.
  
  se não posso, não consigo,
  se não consigo, não tenho.
 
  por isso, sou chamado
  de homem de uma porta -
  aquele alado
  de pórtico viral
  mas que nem sombra tem
  para se esconder..
 
  pois, de belgrado ou álamo
  fuja, e se deixe lá
  pois quase ninguém sabe
  onde fica os tais belgrados e álamos.
  
  e já a casa perdi, e
  junto a
  família, e os desdéns,
  a fruta e o doce.
 
  restou a porta e o jardim
  e as pobres margaridas
  que sofrem com meu desalento.
 
  a vida me começou uma guerra
  e não sei acabar.
 
  ah! e  tudo por ela !
 
  agora sozinho,
  abro portas de cedro
  e fecho as janelas de puro
  abismo.
  
  e, sincero, digo lá
  pro meu medo:
  vamos morrer em belgrado
  ou lá no álamo
 
 pois lá certamente
 ninguém vai me chamar
 de homem sozinho,
que um dia amou
uma porta sem saída.
uma mulher de várias camas
e uma pátria sem bandeira.

 
José Kappel
Enviado por José Kappel em 02/07/2017
Alterado em 27/07/2017


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