José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos




E Tio John, antes de morrer, falou coisas sem nexo, delirou, falou o que não suportava mais estar dentro dele.

Deu um ligeiro gemido, declinou a cabeça e adormeceu para sempre.

Quando jovem, numa tarde, ele me disse: "O tempo é formidável e inesquecível, o tempo é um só, formado de nódoas que envolvem seu corpo. Sua missão é cumprí-lo.

"As vezes - disse ele - a pérola, o diamante ou a esmeralda que você tanto procura ao largo das grandes montanhas garimpando seu espírito com olhos sedentos,um dia você vai encontrá-la aos seus pés, sem que nunca tenha percebido.

" Ninguém no mundo é livre ou independente. É engano pensar que alguém conquistou sua independência. Ao contrário, quanto mais se julgue livre, mais estará atado às cordas invisíveis que regem o mundo.... "

A ânsia pelo poder nos leva a abismos imensuráreis. Somos pobres assim.

Tio John morreu em paz e sozinho, num asilo,com uma perna amputada, esclerosado e principalmente invisível. Ninguém mais sabia que ele existia ou que estava vivo.

Estava esquecido. E morreu naquela tarde. E eu, repenso, sabendo que seu tempo estava apenas começando.

 
Muitos anos depois que fui entender. Nossa missão é compreender o tempo, vivê-lo intensamente. Às pérolas do espírito, que tanto procuramos, às vezes estão ao nosso lado e às vezes, passamos toda a vida sem vê-las. Ms, às vezes, pedras brutas, nos impede de caminhar.
 
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À Maria
" Passei, no arrebatamento e no ímpeto todas as coisas que não havia enxergado. Você, com sua sabedoria e bondade soube me orientar para a realidade.
Me levou para um porto seguro, de onde tinha saido aloucado, sem perceber as consequências que meu ato poderia ocasionar.
Era um círculo de fim de sentimentos de outras pessoas que eu estava arrolando no meu insensitivo.
No momento estou me afogando em tristeza, o corpo me fraqueja um pouco e os as mãos que digito estão ficando frágeis."

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Dedicado à Maria



Canto de um pássaro adornado por pétulas canvas de pés de jasmim


Por encanto à Maria

Um dia, passeando com um amigo, ele disse: " lembra quando você morava aqui ? Eu, incrédulo e surpreso disse " Eu nunca morei aqui ".!
Ele insistiu: " você morou neste apartamento por mais de seis meses! ".
Eu repliquei:  "Eu nunca passei nesta rua, nunca morei aqui "
Na verdade  fiquei com medo. Estava acontecendo algo e eu não sabia. Alguma coisa dentro de mim, advertia - há algo errado na minha vida !
Tudo que parecia perto, se desmanchava como gotas de chuva esmaecesse um desenho qualquer num papel, e deixava, pouco a pouco, a página em branco.
E num dia, próximo a 17 de julho, de um ano qualquer, eu começava a voar para um mundo desconecido.
Eu, acho, começava a entrar no escuro do túnel  da vida . (16 Nov.2018)

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II
 
E a coisa se repetiu. Passeando outra vez, cruzamos numa rua com uma conjunto de prédios com dezenas de apartamentos. A pergunta foi a mesma, acrescentada com " tempos felizes ".E a história se repetiu. " Nunca moreu aqui. Nnca passei por aqui e nem sabia que rua era aquela. A acompanhante, por delicadeza ou por extremo medo do que ocorria, se calou e fomos em frente.

Eu, árduo de angústia, sabia o que estava acontecendo. Estava sendo apagado. Mas, pensei depois, vou compartilhar minha dor com  quem gostava de mim ou cheio de amizade. Eu achei que não era justo. Ninguém deveria saber do que passava. O lapso de tempo começava a me corroer e isso não era uma festa de abraços e beijos, era pura angústia.

Assim tomei uma medida descabida. Cortei todas as minhas profundas amizades, principalmente com aquela que sempre tentou me proteger, nos longos e-mails que a gente trocava.

E, por isso, cessei tudo que estava fazendo, meus sonhos, meus deveres de escrita, que era um vício, Me cortei socialmente. E com o passar dos dias estava sozinho. Só falava com o padeiro às 6h   ao sair a primeira fornada e com meu farmacêutico, pelo telefone, onde ele fornecia apanágio químico para a dor interior.

Hoje  até me canso de escrever. Me canso de fazer  qualquer coisa. Passava o dia inteiro me enganando, inventando coisas, mas no meu interior o sol ia se  esmaecendo. Eu já não era mais o mesmo. Não tinha amigos nem qualquer outra forma de socialização.

Mas um dia, meditei  e pensei comigo. Maria deveria saber do que estava acontecendo. Mas como fazer isso?  Quase 2 anos se passaram e eu havia sumido das mãos dela.

Quando todo mundo está feliz,  todo mundo está feliz.

Então, vim para o RECANTO. Aqui eu posso justificar o que se passava, sem ela saber. Procurei os título que quase ninguém leu ou viria a ler e comecei a escrever, sabendo que ninguém viria mais aqui. Mas tinha uma leve sensação de que ela descobriria - com o faro intuito e denso que ela possui. Um dia  descobriria o que tento esconder.

Outras e dramáticas coisas continuavam a acontecer. Seria assunto de uma próxima ocasião.Hoje estou fatigado.
                                                                 (22 dezembro de 2018)


III

Querida Maria

Voando pelos Abismos

Maria. Minha fadiga me preocupa. Já não tenho de  vontade de escrever  nada. É um desânimo pertinaz. Escrevi alguma coisa no RECANTO sobre celular. Mas senti que ninguém  estava interessado no assunto. Tinha mais coisas assustadoras que só virão à tona entre 1o ou 20 anos, segundo um psiquiatra. Desisti. Hoje falo sobre sangue

As coisas estranhas continuam. Às vezes estou aqui na minha sala e preciso apanhar alguma coisa no outro quarto.Quando chego lá não me lembro mais do que fui apanhar. Fico, por minutos, olhando as coisas até me lembrar.

Outro dia desci de carro quando cheguei no meio do caminho, não me lembrava mais o nome da rua. Desisti.

Poeticamente me deu vontade de comer peras. Peguei o carro e fui até lá. Sabia bem, pois, onde compro, tem uma farmácia. Como conheço o dono, Compro alguma coisa lá e aproveito o estacionamento. Comprei 3 bolsas com sete peras cada uma. Ao tentar descer um degrau...não achei o chão e desabei. Fui ao chão como um bêbado que não consegue se manter em pé.

Menos do que a vergonha, foi entender o que estava acontecendo comigo. As pernas estavam perdendo as forças. O farmacêutico que estava na porta, me ajudou a levantar e me de um comprimido para a dor. Ele aconselhou a chamar alguém da família para levar o carro. Agradeci e peguei o carro assim mesmo e cheguei em casa, apenas dolorido e envergonhado.

Mês que vem minha carta expira. Não vou dirigir mais. Vou tentar sair o menos possível. Talvez na padaria - que já não vou há uma semana -. O pessoal lá tá perguntando  o que houve por mim. Já sei o que fazer. Vou parar o carro próximo ao meio-fio e vou tentar andar, já que nessa hora há pouca gente na rua.

Dirijo, acho, desde os 15 anos. Pena.

E não vou ao médico. Já sei o que ele vai fazer. Me olhar, me pesar, medir minha presão. Perguntar o que estou sentindo. Vai pegar prontuário e me pedir centenas de exames, que logicamente, não vou fazer.
Beijos, José.( 2 dezembro de 2018)


 
IV

Querida Maria. Acho que já disse no início.Deixei de escrever para você, não para   que  você tenha pena de mim. Não quero isso. Optei  por cortar nossas palavras  apenas para defendê-la, do que sinto e do acontece na conexão de minha vida com o infinito. Quero poupá-la de preocupações. Você não merece saber o que sinto, pois conheço você muito bem. Logo você ia absorver minhas dores com conselhos e ficaria preocupada e minha dor ia se transformar em duas.

Assim, quieto neste canto, é um quarto escuro, onde posso gritar a vontade sem que ninguém ouça.
De vez em quando venho aqui e conto coisas que eu não contaria se você estivesse ouvindo. Hoje é uma tarde de quinta-feira. Ia sair para ir ao banco. Mas o medo me tomou. Eu não conseguiria subir as escadarias do banco, e talvez não descer. Então me concordei e me deu alguma força para escrever.
Outra coisa que anda me incomoda muito são os lapsos de tempo. Muitas vezes acordo e não sei o dia que é. Um dia levantei num sábado, pensando que era domingo. E por ai vai. Tem acontecido com mais frequência. Troco os dias como fosse um caixa de supermercado entrevoado de moedas.
O único que contaria isso seria a meu irmão, o que morreu. O único que tomaria uma posição imediata e não esta confraria de exames inúteis a que seria submetido se fosse a alguma médico. Vou deixar que os exames venham a mim.

Fico triste, porque cortei minha relação com o mundo. Perdi  meus amigos. Os livros tirei das caixas e coloquei na estante. Mas estão lá imóveis, pronto para serem acariciados. Mas não tenho vontade de mostrar isso a ninguém, apesar de você fazer parte de quase todos.
Nesta de perder amigos entrei para a confraria dos sozinhos. Não atendo telefone, não atendendo a portaria, parei praticamente de escrever.Não respondo a e-mails. Só quero ficar sozinho e com meus cigarros, cuja fumaça fica me rondando  espelhando  uma eternidade curta

Tem dias que vou dormir às sete da noite e acordo às 11 .Levanto, tomo banho, faço a barba, faço meu café e venho para meu computador, onde fone de ouvido, fico a rádio. Única coisa que ainda gosto e seu que é uma minha, que eu criei e muita gente agora passou a tentar imitá-la. Mas não conseguem, porque ela tem um segredo que todo ouvinte gosta.
Lógico. Não é uma super-genial-rádio. Nada disso.
Vi uma foto da rádio Eldorado, de São Paulo e ela possui quatro monitores para quem está na mesma de comando e mais 2 monitores distruido para 2 locutores que se refezam. Genial. Eu poderia chegar perto disso. Mas cansei, apesar de saber que teria que tirar alguma músicas que nada tem a ver. Mas, desisti. Estou cansado e desanimado. Deixa como está. Para você ter uma idéia. Ela funciona com 2 computadores. Cada computador tem 70 GB de música. Que dizer, apenas um computador, poderia tocar uma semana inteira que não repetiria uma música.

Eu disse lá em cima que vou dormir às 7 e acordo às 11. São apenas 4h de sono. Durmo e acordo no mesmo dia.

Quando eu achar que já disse tudo,  vou mandar um e-mail para você, para que você venha ler e saber o porquê de todas as coisas. Apesar de que o porquê de todos as coisas não são respostas são restos e confissões.

 
( 6 de dezembro de 2018)
 

V

Estou há muito tempo pra te dizer isso. No meu aniversário, sem ser este ano, mas o outro - quando nadávamos em rosas, não cheguei a ler o que você manou. Se que você mandou, porque de manhãzinha procurei no computador e achei um link. Nunca consegui entrar nele. Meu computador não abria o link, apesar das inúmeras tentativas. Pensei em ir em seus escritos.Mas você tem centenas. Eu não iria achar. Valeu a intenção apesar de nunca ter lido, o que gostaria muito, pois me dá um ânimo interior.

Você já deve ter percebido que deixei o UOL. A questão começou simples e acabou muito complicada. Eu só queria sair. Anulei qualquer boleo que chegasse na minha - pois era débito bancário. Para dar uma satisfação a eles, tentei os telefones. Ninguém atendia. Tentei falar com a Ouvidoria, mas o sisema deles não deixava enviar. Tentei o chat, mas ninguém respondia. Tentei de todas as maneiras que você possa imaginar e ninguém respondia. Ou melhor, fui atendido umas 3 vezes e, em todas elas a atendente, quando sabia o que se tratava, desligava o telefone.

Resolvi deixar o UOL porque eles colocavam a quantia que quisessem e tinha que pagar. Comecei - isso em poucos semanas - pagando 10, depois 15 e, finalmente eles aumentaram para 40 reais.

Ai começou a revolução das moedas. Comecei a receber e-mails de cobranças. As mais díspares possíveis. legando atraso no pagamento cobraram 50 , depois 80 e chegaram - num período de 3 meses. A última que recebi já totalizava mais de 300 reais. Roubo puro.

Não pagaria isso de jeito nehum, mesmo se fosse preso.

Tinha vários caminhos para sanar o problema. Ia começar com o mais simples:RECLAME AQUI - a reclamação ainda deve estar lá. Descrevi o problema com todos os pormenores, pois eu sabia na verdade eu devia $15 reais. E o débito aumentava sobre a justificativa de juros. O último que boleto que recebi esava perto de 400 reais.

Semas depois recebi um telefonema do UOL, mas era um dos diretores financeiros, pois com atendentes, eu não falaria mais. Eu expliquei o problema para ele, pois senti que ele falava diferente, num tom educado, querendo saber da história.

Alguns dias depois ele telefonou pra mim e disse que tinha levado meu problema para o Conselho que eles tem lá e, para resumir, ele aceitou minha retirada do UOL, sem pagar nada, pois, no final, ele concordou que eu tinha razão e ainda pediu desculpas.

E aqui termina a história minha com o UOL. Nunca mais acessei a página deles. Não passo nem perto. 
Final feliz e complicada para uma história simples - quer sair, sai. Pronto,acabou. Meus e-mails agora são do GMAIL.

Maria estou escrevendo, mais não estou corrigindo nada. Não sei quantos mil erros tem por ai. Antigamente você fazia a revisão. Quase todos os livros - que um dia você vai receber todos - foram revisados por você.

Aliás, nem sei por onde você anda. Nem sei se o e-mail é o mesmo, não sei em quanto doutorados você fez. Se ainda está casada ou solteira. Se tem mais filhos ou se mora na mesma casa.

Estas linhas não são pedidos de desculpas.É apenas o que começa a acontecer comigo.
Você não imagina o que é cair em plena rua. Cinco vezes. As pessoas me olham como se fosse um bêbado. O que vou fazer? A vida. Ah! a vida tem caminhos tortuosos. Comecei a andar por essas trilhas. Mas também não saio mais de casa.Se vou sofrer a dor é apenas minha. Não quero que ninguém saiba disso.

Maria,

O que vem ai é problema meu. Só meu.
Não quero ajuda. Não quero médicos.
Beijos. José.
     (7 dezembro 2018)


VI

Ainda vou acabar errados os algoritmos tomanos. Este deveve ser o 6. E você Maria, como está passando, Eu estou indo na tristeza e na alegria. São dois sentimentos que se alternam.
Hoje ainda é domingo e sai manhãzinha. Pensei comigo. Hoje não tem multidão natalina na rua e posso ir ao banco. Lá pela sete e meia fui eu parei na porta, porque os guardas ficam dormindo.
Sai do banco e novamente havia uma mureta pra gente ultrapassar até chegar ao carro. E o problema veio de novo. Meus pés não conseguiam alcançar o degrau. Quando pisei não encontrei o piso. Eram uns 10 centímetros, mas titubei. Não havia gente, Coloquei os pés no chão de solavanco. Mas assim mesmo, saltei feito um bêbedo inicial. Fingi que era dor na perna e fui andando mancando. Maria, até um simples degrau eu consigo alcançar.
Mas não me peso. É vida e angústia se misturando.
Depois eu volto. Beijos. José.
 
9  dezembro de 2018
José Kappel
Enviado por José Kappel em 13/07/2017
Alterado em 09/12/2018


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