José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos

Reboar dos Espíritos
E o reboar das cinzas segue caminhos intrincados e, às vezes, incompreensíveis e esporádicos. O espírito de cada um é uma trilha, às vezes trevorosa, outras, aparentemente, luminosas. Nada engana o espírito pois ele se ramifica com a própria natureza e nos atordoa com ações trepoliates.  

Se nada se perde, tudo se transforma. E é concludente: se você move um simples grão de areia, ele terá de ser reposto de alguma maneira. Não há respostas para esta mutação do invisível em que estamos envolvidos.
Se você perde duas pedras elas serão dispostas à você de alguma maneira e de uma medida que talvez você leve anos para descobrir que o retirado foi colocado de alguma forma e talvez não descubra nunca que o partilhado lhe foi entregue de maneira que, talvez, você nunca perceba.

O espírito é um dom em rebuliço. É aparentemente insensato e insensível. Quantas vezes, perdulário, você se pergunta: "Mas por quê, comigo"? E a resposta é simples: porque você faz parte intensamente das coisas. Por isso, lhe colocam numa roda de angústia e ansiedade para, mais tarde, bainar o vento cálido e da sensatez em você.
Nada é em vão. Nada se perde. Se você sofre, eu, de alguma maneira, também. Esta é a orca da vida. O parâmetro do desconhecido.

A vez é de todos. Uns bons, outros maus. Mas a justiça, parceira da bondade e da justeza, prumam sua vida para que jamais perca seus dons, lastime por suas coisas, ou por seus entes.

O nosso Deus se faz e se camufla nas rodas do tempo e sobrevive nas coisas mais inesperáveis. Você é ruim de nascença? Não! Você está sobre a prova e o jugo das garras da tríade da justiça do imponderável e do inexplicável.

E não adianta fugir das rédeas inflamáveis deste módulo. Ninguém tem o dom de escapar ou se esconder. Você faz parte. Você sou eu, eu, parte de você.

Quando algo se move na natureza, também o espírito o acompanha. Se você perde algo, alguma coisa lhe será certamente devolvida. Resta saber de que modo, e de que forma você está preparado para perceber, ou durante quantos anos e anos à fio, você ficará à prova, até descobrir que aquele pequeno grão de areia retirado de seu lugar, voltou para a mesma posição, atomizado no mesmo grau. É sua vitória, é a volta de suas raízes. É seu ganho. É minha também a vitória, porque somos dois.

O espírito nunca se perde porque está embrenhado dentro de nós. Somos as duas faces da mesma moeda. Entender todo este mecanismo, é entender um pouco de nosso espírito. Nesta história, não há ganhos nem percas. Tudo é acomodado de acordo com nossa passagem momentânea e impermanente pela vida.

Vida que não perdoa, porque não foi feita para isso. Foi feita como uma gigantesca máquina para reparar nossos danos. Se destruímos uma floresta, outra teremos que refazer, leve o tempo que levar. Se matamos, teremos que reviver outro espírito para que tome o lugar daquele. O que faz a natureza espiritual é descobrir um caminho para esta redenção, que pode levar anos, pode levar séculos.

Ninguém sai desta roda impune. O tempo não conta, porque não falamos em espaço. Se o tempo para nós tem um minuto, para outro tem dez. Se você vive um minuto, outro viverá cem. É o equilíbrio inevitável da natureza e a acomodação dos espíritos.

Por isso, passo ao largo, ao ver a maldade prosperar pois sei que, por detrás do corpo que ataca, outro virá que atacará, e os dois ficarão numa balança invisível, onde as forças serão medidas. E a vitória não será da razão, mas das forças que regem cada espírito. O mais fraco bailará o vesgo e o indeciso e o mais forte entoará o sóbrio canto da igualdade e fraternidade. É a justiça do espírito, a acomodação da natureza.

Por isso, é que tudo que faça de mal voltará contra você mesmo. E de bem, tomará seu espírito de graça e suavidade. É sua vitória, a vitória da natureza e do espírito comum.

Por isso, creio no movimento incessante de pedras, montanhas e florestas. Todos estão em constante mutação. E você não é simples observador: você faz parte intrínseco e radioso, desse movimento inesgotável, de forças gigantescas - que não compreendemos - que se ergue na natureza e se aliança com o nosso espírito. Meu e seu. Porque somos aparentemente dois espíritos. Mas, na verdade, um.

O que te acolhe, me verba. O que te fere me dói!
José Kappel
Enviado por José Kappel em 29/04/2017
Alterado em 24/05/2017


Comentários

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras