José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos

Querido Amigo
Nada mais poderoso do que a natureza quando expande suas raízes e faz de nós esplendorosos, cativos, apaixonados, iluminados ou aparentemente ocasos.

Tenho um amigo, você! Igual a todos, feliz como todos, ama a vida, suas coisas. Tem suas quedas, depressões e ansiedades. Mais humano do que isso não poderia ser.

Você é gay. Não se admoeste com esta palavra. Mas, aí começam a se abrir e fechar portas. Aí começa outro mundo dentro de nossas linhas e limites.

Tenho o maior amor por você e, desde pequeno, você me contava suas tendências, que, na época, chegavam a ser surpreendentes para mim.

Com o tempo e o amadurecimento, tentei compreendê-lo e passei a amá-lo mais ainda.

Amor de amigo pela sua ansiedade diante das coisas, pelo repúdio que sofre diante das miudezas do mundo e dos outros. Principalmente a dos outros.

Às vezes você é objeto de descaso, vilipendiam sua honra, sua altivez e tentam demoli-lo da condição ser humano normal.

Aqui não interessa analisar a história, as particularidades fisiológicas ou psicanalíticas de um homem e de sua tomada de posição diante da vida.

Muitos não aceitam esta ordem. Você tem seus valores subjugados pela família, por antigos amigos, no trabalho, na universidade.

Você é orientado pelos deuses para ser encarado por diferente. E por ser diferente, todos, de soslaio, o olham surpresos. E sussurram por todos os cantos: ele não é normal.

Mas é muito normal, muito inteligente, vive seus anos na maior alegria interior e já colocou uma parede entre aqueles que o aceitam ou não.

Apesar da animosidade e da inflexão de alguns em negá-lo, você já passou da fase do desespero interior e plenamente assumiu sua tendência.

Para saciar os avulsos de uma sociedade falcatruosa e não amigável, você fez seu círculo de amizades, onde reúnem e discutem seus anseios, medos, alegrias e tristezas.

Mas, o que mais me dói nesta história é que a família é a primeira a rejeitá-lo, ao ponto de dispersá-lo ao vento e mandá-lo viver sozinho.

Quando minha mulher e eu o visitamos onde você vive com outro homem, sentimos o alijamento que a sociedade te impõe.

Até para alugar o apartamento vocês sofreram discriminações como se fossem débeis. Onde vão - num teatro ou num restaurante, são fatalmente e disfarçadamente colocados no chamado ponto de reversa.

Num canto, numa mesa mais escondida, ou em cadeiras mais afastadas.

E quantas vezes não o flagrei chorando na luz de seu mundo?

Amo você pela sua vontade de viver, pela sua ânsia das coisas e pela sua força em não odiar ninguém.

Tentar apenas compreender o que se passa dentro de uma sociedade recatada, que realiza seus sonhos somente noite adentro, onde absurdas realidades acontecem. No dia seguinte, são homens "normais". Normais demais.

E daqui, sem você ao menos saber onde encontrar, lhe envio esta singela carta. Para que cada dia tenha mais forças e realize seus sonhos e se nutra cada dia mais com o que a natureza lhe presenteou: o amor.

Um beijo de seu amigo.

P.s.: alguns pensamentos que estão dispersos em meu tempo:

"Há flores que nascem em qualquer jardim e não foram feitas para sem julgadas e sim para serem amadas".

"Quando Deus fez a natureza a fez com inúmeras ramificações. Nada de escandaloso ou fatal. Apenas gente igual a gente, pronta pra dar e receber o amor que brota no coração".

"Nada mais lógico do que repudiar o que é diferente de nós. Os diferentes vivem angústias e temores, mas são ricos em amor e bondade. São as purpurinas de Deus".

"Não me peça para explicar o que não entendo, mas o que amo".

"Não faça de sua vida um mistério. Se você tem um, exponha-o à luz do sol e deixe-o frutificar".
José Kappel
Enviado por José Kappel em 29/04/2017
Alterado em 27/07/2017


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