José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos

Maria Pão e Vinho
"Queria que fosse um tonel de carvalho cheio, até a tampa, de vinho doce e atroz delicioso. E que todas as noites todos viessem e bebessem um gole daquele vinho. Árgulo e espátulo! Misturariam-se os espíritos, e a dor deles, seria nossa. E a nossa também seria sorvo deles."

E por não saber como dizer, mando um breve intervalo de minhas orações que, espero, cheguem à você, como um prumo do sol sem dono e sem nome. Apenas para você. E, se você se achar aqui, é você a Alada do Vento, de nome Maria, da loquacidade de Vânia ou Sandra, ou Carmela dos Reis, à procura de outra vida, que está em minhas mãos. É só sobrepujá-la.

Desculpe, por ser assim. Longe de mim magoá-la, ombrear seus sentimentos em dor, fazer revés de suas ânsias, testar a dor sem ampará-la.

Você me conhece e sabe de minhas razões. Ando à persegui-la em meus sonhos. Tenho vontade de conquistá-ta a cada dia - pesaroso sem você -
carga de dois - que o mundo nos faz atravessar.

Desculpe, por ser assim. Do Cáucaso à Belém coloco uma flor em seu caminho, abro espaço para a luz para você mergulhar no espaço entrelaçado de estrelas, onde só lá, só lá, você sobrevive, igual aos
amores de pergaminho que não se deixam morrer nem pela espada do mais puro fogo.

Não pense que fico indiferente aos seus carinhos. São importantes demais pra mim. Sofro distante sem você. Mas aprendi deixar sofrer.
Porque é aí que a gente compreende os dois passos da vida. E deixa a morte de lado.

Te quero muito. Quanto mais a gente se fala, mais permanece, neste ávido caldeirão que não entristece.

Desculpe, por ser assim. Não sei de nossos benfazejos. Talvez um dia eles se cruzem. Talvez não. Mas uma coisa é certa: gosto de ferrenhas
batalhas - meu orgulho de criança, da minha criança de gude.

Jamais pense que sou indiferente à você. Cada carta que escrevo é imaginando você. Nada mais justo para quem é a minha musa. Justa causa que navega ao prumo de nós dois. Minha cotovia ardente de luz!

Às vezes tenho medo de meus passos. Eles vivem do tempo. E o tempo é curioso, mas peca por ser ávido em solapar os dias, numa corrida ao vento.

Mas, na ombreira da vida há sempre cargas douradas. Tenho de achar o nosso fardo.

Dê tempo neste pouco tempo. Dê espaço neste cômodo de nós dois. E se você acredita, eu também acredito. E se você faz, eu permaneço de guarda, anfitrião do tempo, moscado de dor, nesta separação que só não acreditam, os de pouco alado.

E por te querer, mando um abraço e um beijo.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 30/06/2019


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