José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos

Já Ouviram Chopin Hoje?
 
Deveras preocupado com meu interior fui procurar solavancar meus sentimentos com a única pessoa que eu tinha meia desconfiança - meu psiquiatra.

Um homem com todos os defeitos imagináveis. Bebia, jogava e fazia sexo três vezes por dia, antes mesmo de surgir o Viagra. Quem me confidenciou foi uma cliente dele, uma moça corroída de boniteza, com 19 anos. Hoje nem sei mais dela. Desapareceu do consultório. Diziam que estava grávida.

Lá dentro de uma sala, meio escurecida e sem vento, expliquei a ele que meu interior estava devassado, estava bambo e fragilizado por tantas coisas fúteis que via todo dia.

Ele calado, apenas me ouvia e dizia: continue... continue.

Eu, homem dado a falar, contei que sentia uma inutilidade total nas coisas que me cercavam.

Eram festas sem sentido, onde todo mundo ria, com um copo na mão, era no imiscuído Country Clube onde rodas de homens discutiam conjunturas. Eram as mulheres que se aglomeravam em mesas e riam sem parar sem eu saber de que. Será que histórias de homens são tão gozadas?

Contei a ele que frequentava o A.A. - Alcoólicos Anôninos, os S.A. - Solitários Anônimos e o VGA - Viciados Generalizados Anônimos.

Disse pra ele - e ele só dizia: continua... continua... - que as circunstâncias de minha vida eram as mais sombrias possíveis.

Não gostava mais de nada, nem da própria mulher, queria um pouco os filhos, mas só de visita, pois já estavam mal-casados e morando longe e só me visitavam quando eu anunciava que ia fazer churrasco à beira da piscina. Aí vinham todos eles, com aquela chanfrada de crianças, que ensurdeciam minhas músicas - desde Chopin à Bach - todos eram vilipediados em seus tons harmônicos pela insonsa gritaria e alarido.

Dizia eu pra ele - e ele só respondia: continua, continua -.

Falei pra ele que tinha perdido a razão de viver.

A não ser a música que me dava um apanágio e me levava às nuvens, pela doçura dos acordes e os frequentes lampejos de genialidade dos mestres, nada mais tinha importância.

Frequentava ao A.A., mas tinha vontade de beber e bebia - uma garrafa de uísque por dia. E fumava,- quase dois maços por dia. Vícios outros? Uma dezena deles. E cada vez que visitava e via esses centros e retocava o olhar nos rostos daqueles homens - ex-viciados e agora bem comportados, mais eu me entristecia.

Assim dizia eu e ele apenas meneava: continua... continua....

E eu assim discorri durante horas com meu psiquiatra que, inteligente e veloz, não disse uma palavra.

No final da consulta ele disse: continuamos na próxima sessão. E nada mais se falou. Sai dali mais atordoado e infeliz do que antes. Pois aquele homem acabara de me deprimir mais ainda.

Comprei uma garrafa de uísque, sentei no alpendre em minha varanda, enchi o copo, liguei a música e comecei a sonhar que era um homem igual aos outros. Ou uma criança jamais querendo ser adulto. E dormi, desejando que o dia de amanhã não existisse.

Dentro de minha rebeldia não aceitava mais nada. As flores de algum jardim estavam murchando.

E vocês? Já ouviram Chopin hoje sentindo dores incríveis do câncer, onde o uísque apenas tira, por instantes, a presença da morte?
José Kappel
Enviado por José Kappel em 01/01/2020
Alterado em 06/01/2020


Comentários

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras