José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos


. A abundância de meus passos são a escassez dos seus. Nada posso provar, nem reagir. Se muito fala, pouco digo.Se me calo meiado de apreeensões, sou tímido ou avesso.

Meus passos se dividem em vários. Ora estou subindo, ora descendo. A sola do sapato arniz geme com tanta andança interior.

Se sou forte me chamam de augusto; se fraquejo nem um pobre perdão me sacolejam.

Então, sou assim.

Uma hora pra subir, outra para descer. Nunca ficar quieto: esperar o alvorecer e o adormecer da noite são coisas passíveis e até cruéis.

Se enfrento uma guerra, lá vou eu sozinho, de armadura reluzente e pingentes de prata - bolas de chumbo - a rebater em meu corpo: sombreio o sol com um lânguido capacete bem próprio dos guerreiros sem pátria.

Se vou lutar por um rei, não ganho o reinado. Se luto pelo povo não ganho sequer uma cabana sentimental de dois tetos.

Assim, sigo meus passos sem ninguém percebê-los. Contar pra quê. Contar pra quem?

A única que meu ouvia era Maria, mas ela também logo ao ser deflagrada a guerra interior, partiu inocente para o mundo onde exalava apenas cinzas e fogo.

Distribuo pão aos pobres, pois a eles sou grato - me fornecem aguardente. Distribuo carinho aos bichos que me roçam nas ruas, pois a eles sou grato - me acompanham sem medir passos.

E se atravesso avenidas interiores onde o que é mais rarefeito é falta de ar e os comezinhos de um homem solitário; e me perseguem sombras sem nome.

São parentes e amigos que surgem não sei de onde. Descobri, por acaso, um dia ao visitar um santuário, que eles estão todos à minha volta e muitos me guarnecem. Pois em vida os abriguei com o calor de minhas palavras. Outros, nem tanto, - os conheço - mas passam indiferentes. Apenas acenam a cabeça-mortalha, num cumprimento vago e indeciso.

Mas todos estão por aqui e por ali. Por isso, tenho medo de ser um deles. De revê-los como o fazia na infância de dois trenzinhos e uma sentinela fiel.

Perdi todos os brinquedos quando parti como homem feito para conquistar o mundo. Meus pais me abraçaram, outros me trouxeram guloseimas, outros sanduiches de mortadela e outros um abraço.

Me comovi mais com os abraços. Pois não é todo dia que a gente recebe um abraço fraternal. E que não seja fraternal, que seja um abraço com cheiro de mulher perdida.

E essas palavras são apenas para comunicar que, de lance em lance, perdi tudo o que representava na vida . Hoje, sozinho, rodo de esquina em esquina. Encontro bêbados, mulheres nuas, homens trôpegos; mas no fundo, no fundo, queria encontrar Maria.

Mas Maria se foi com as sombras do dia.

E hoje de rua em rua, rodopio feito vagalume atrás de alguma luz. Luzes há. Mas não são aquelas que me fogueiam de verdade.

E se tudo é falso à minha volto, quero voltar a ser criança e abraçar o mundo com soldadinhos de chumbo e nunca, nunca mais tentar viver nessa terra de lances duvidosos, onde mandam os mais fortes e perdem os mais fracos.

Se quero morrer, não consigo. Quando penso nisso uma voz meiga me acalenta:

- Fica, fica mais um pouco, quem sabe, um dia o sol volta a raiar dentro de seu espírito e você se faça conquistador de sete mares, senhor das almas, amigo dos que se perderam nas horas que o mundo conta.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 27/01/2021
Alterado em 28/01/2021


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