José Kappel

Um amor sobrevive ao outro.

Textos


Sou justo,cristalino,inclinado,
perfaço a água, como infusão, 
de um brado de amor.


Sou aquoso,oxidante,
perfurador de ânsias,
barítono de uma grandeza
que me fez,um dia,
rei dos feéricos.

 

Rústico, de qualidade suspeita,
até precária,
rodo mundo como um riacho
sem precdentes:
nada me aguarda, as portas
estão fechadas,
sou piracema lustroso
e caminhante rodeado
de sal.

 

Axés! 

Rodo à volta,
e nela goteja
louro-cerejas que formam
frutos,
que,algum dia,
será água de rosas
mas sem face,
com presença falida,
em minha borda mortuária.

 

E rodo mundo sem cordas,
e enfrento lagos,fontes,
bradeado de chuva.


Até vento de ordem!

 

Sem valor,mais zeloso,
rodo por dutos seculares,
destilado,meteórico,
de tamanho fácil
e cheio de dores
vacilantes.

 

Se somos dois,
somos parte de água,
lustral das flores e musgos,
percorrentes da vida e da
morte - lá onde cai o sol
e levanta a lua.

 

Se somos dois,
somos partes,
e dentro de amores,
a gente jura, sem querer,
o que hoje é dormente
amanhã será diferente.

 

Nas águas panadas
levamos o sabor amargo 
da despedida.


Mas,
sem cores aladas.

 

Um dia você se foi avoada,
como rolam águas,
sem jeito de partir.


Um dia você se foi
como coisa do passado.

 

E teve gente que disse:
lá vai ele:
carregado de intrigas
e pouco perdão.

 

Lá vai ele - diziam -


O homem que veio da noite,
disfarçado e descobriu
o fogo,a pedra e a água.

 

Mas, desvendado de carinho,
foi morrer
entre os reluzentes
marinheiros
de alguma praia
sem nome e perdida.

 

Lá na fervura,
onde aquecem
o gosto do amor-mar,
de cerejas e espinhos,
e dormindo, pra sempre,
ao lado de uma definhante
água-marinha.

José Kappel
Enviado por José Kappel em 22/09/2022


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